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“Quando me beliscam eu reajo”

10 de Agosto 2018

Publicado a 17 de Maio de 2018, na edição n.º 926

 

Nome: FRANCISCO Correia de Figueiredo ANDRADE
Naturalidade: Sátão – Viseu
Idade: 79 anos
Profissão: Presidente da Junta de Freguesia de Santo António dos Olivais, ex- treinador da Académica de Coimbra/OAF
Passatempos: Escrever
Signo: Carneiro
Orgulha-se do percurso que fez ao longo da vida, desde a assinatura que falsificou do pai para entrar no mundo do futebol à equipa e cidadãos que hoje lidera na maior freguesia de Coimbra, Santo António dos Olivais.
Francisco Andrade nasceu na vila de Sátão, em Viseu, onde permaneceu até terminar a quarta classe, altura em que o pai resolveu colocá-lo num colégio na esperança de o afastar dos “devaneios e vícios da bola”. O falecimento prematuro do progenitor vedou-lhe a possibilidade de testemunhar que o filho viria, mais tarde, a vingar na equipa onde também ele se formou vestindo-lhe o coração de ‘capa e batina’, a Académica de Coimbra.
Ainda adolescente e já órfão de pai começou a dar nas vistas nas camadas jovens do Sport Viseu e Benfica tendo sido convidado depois pelo antigo Presidente da Académica de Coimbra, Carlos Xavier, a integrar a equipa dos estudantes. Fez os treinos de experiência e aí acabou por ficar, terminando o ensino secundário. Vivia na Rua Sá da Bandeira, paredes meias com uma residência feminina onde, à distância de uma varanda, se enamorou pela mulher que é hoje a sua esposa: “Conheci-a à janela. Eu naquela altura estava numa fase totalmente diferente daquilo que era antes. Já quase não saía e queria estudar. Namorávamos e a certa altura ela também deixou de estar entusiasmada em tirar o curso e queria trabalhar para ganharmos dinheiro e assim podermos casar. E casámos mais tarde, tinha eu 23 anos. A minha família não tinha grandes possibilidades e então foi um casamento muito restrito num restaurante simples e o que recebemos de prenda permitiu-nos começar a viver num quarto e daí o orgulho que tenho em dizer que desde a primeira cadeira até ao candelabro fomos nós que comprámos. Só quando nasceu o nosso filho é que nos mudámos para uma casa”, relembra o autarca. Nessa altura a rebeldia que, afirma, o caracterizava já tinha acalmado e a bonança que vivera na era do pai já não existia: “já não tinha dinheiro para algumas coisas.
No tempo do meu pai vivíamos bem mas estes tempos eram outros. Comecei a ter um brio.
Naquela altura eu tinha um irmão mais novo que ainda estava a estudar e um dia a minha mãe veio aqui a Coimbra e queria dar-me 500 escudos e eu, que sabia que ela estava a aguentar com tudo sozinha, respondi-lhe “então ainda ontem recebi, não faz ideia do que isto
é!”. E eu que não tinha um tostão no bolso. Não tinha recebido nada e para ir para o estádio ia a pé porque não tinha dinheiro para o eléctrico”.

Em meados dos anos 60 sofreu uma lesão que o impossibilitou de continuar a jogar permitindo-lhe, no entanto, começar a treinar as camadas jovens da Académica de Coimbra.
Em 1969 é chamado para treinar a equipa principal da Académica e vai à final da taça de Portugal. Mas pouco tempo depois as circunstâncias levam-no a sair: “a equipa tinha feito um contrato com o treinador Juca que estava a treinar a selecção nacional antes de eu entrar e ficou combinado que eu estaria ali temporariamente. Mas, no ano seguinte, peguei na equipa principal outra vez. Estava tudo a correr bem e, entretanto, vou à televisão e o entrevistador diz “então o Juca vai para a Académica?”, e eu não sabia de nada. Cheguei a Coimbra e fui
ter com o presidente para saber o que se passava e ele disse que tinham de cumprir a palavra mas que eu fazia parte da casa, etc. Bem, fiquei até ao final do ano a treinar os juniores (que levei à final do campeonato nacional) e saí. Nunca perdoei vir a saber desta situação pela boca de outros”.
Aceitou depois o convite para treinar o CF União de Coimbra que estava na segunda divisão e é com Francisco Andrade que, na época de 71/72, a equipa sobe à primeira divisão e a Académica desce. Resolve então enveredar pela vida de formador. “Sinto-me honrado em
dizer hoje que o Mourinho, Carvalhal, Couceiro, Peseiro, entre outros…foram meus alunos no quarto nível em Metodologia de Treino e Técnica Táctica. Até determinada altura era só o primeiro nível e aí fui um jovem professor, ao lado de grandes mestres. O Manuel José, o
Jesus, foram meus alunos, entre outros. Depois, quando cada nível era especifico de uma divisão, eu começo a ser formador de todos esses cursos e mais tarde formador de formadores. Dei mais de três mil horas de formação pela UEFA/FPF”.
Enquanto treinador dirigiu ainda equipas como o Marítimo, Salgueiros, SC de Espinho, Naval 1.º de Maio, Oliveira do Bairro, Nacional da Madeira e União de Tomar, entre outras.
Foi presidente da Cooperativa de Habitação ANCA, deu formação no futebol em vários países da Europa e foi Vereador da Câmara Municipal de Coimbra. Em 1999, aceitou o convite para se candidatar a Presidente da Junta de Freguesia de Santo António dos Olivais.
Ganhou as eleições e fez três mandatos desempenhando, concomitantemente, o cargo de 1.º Secretário da Mesa da Assembleia da Câmara Municipal de Coimbra, posição aliás que ainda hoje mantém. Em 2017 foi reeleito, após quatro anos de interregno. “Eu costumo dizer ‘quando quiserem que eu não faça não me digam para não fazer’. Porque quando me beliscam eu reajo. E se há coisa, que me orgulho de dizer é que aqui nesta casa, não há diferença no tratamento que eu tenho, do professor doutor ou do cavador de enxada. Recebo-os a todos da mesma maneira. E a cada um procuro dar uma resposta sincera e verdadeira. E é este o Francisco Andrade. Uma pessoa que hoje vive, principalmente, para a família procurando que os outros me tratem da mesma maneira que eu os trato”.

E ainda…

“O meu pai chegou a ser Presidente da Câmara e hoje há uma estátua dele em Sátão. Ele ficou conhecido como “Pai dos Pobres”. Chegou a ter três farmácias mas nunca enriqueceu.
As pessoas iam buscar medicamentos e, além disso, ainda levavam muitas vezes alguma coisa para comer. Sinto muito orgulho nisto o que também leva a que ainda hoje vá à minha terra e me continuem a tratar, carinhosamente, como Chiquinho.”
“Quando fui treinar o União de Coimbra, o meu contrato tinha uma cláusula que dizia quanto eu ia ganhar se a equipa subisse de divisão. Eu na altura coloquei um valor muito alto achando que era algo demasiado idílico mas o que é certo é que, com sorte ou com alguma coisa que me segue na vida, o União de Coimbra sobe de divisão e a Académica desce e esse valor ficou comigo.”
“Meu Pai, o meu grande ídolo disse-me um dia ‘doutor é fácil, senhor é que é difícil’, nunca o esqueças…com o tempo compreendi o  significado desta frase mas também o seu desejo íntimo que eu desse continuidade aos estudos pois poderia ser uma garantia para o meu futuro”.
“Uma altura tive de optar entre entre ser treinador profissional e vir ao domingo a casa ou não abdicar disso e restringir a distância a um raio de 100 quilómetros, e optei por esta segunda opção.”
“Não sou rico, nunca ganhei para ficar rico, são poucos os que ficam ricos a trabalhar.”
“O meu pai não queria que eu seguisse futebol e naquele altura até era normal. Ele só aceitaria se lhe passasse pela cabeça (o que nunca passou) que a Académica me convidaria. Porque ele era doente pela Académica.”
“Em 2017 fui vereador da Câmara Municipal de Coimbra onde era 1.º suplente mas acabei por estar presente em todas as reuniões de Câmara porque em 99% delas faltava sempre alguém.”
“Estava convencido que, em 2013, quando saí tinha acabado a política mas eu costumo dizer quando quiserem que eu não faça não me belisquem porque aí eu reajo.”
“Um dia, quando estava no União de Tomar onde não se pagavam os ordenados e os jogadores tinham grande dificuldade na vida, eu trouxe um filho de um jogador ao médico aqui e depois ele foi almoçar a minha casa. Talvez por ser mais rápido na altura a comida era batata frita com um bife e o miúdo vira-se para o pai e diz ‘olha pai carne há tanto tempo que não comemos…’ e a minha mulher foi a chorar para a cozinha. Mas isto foi apenas um dos casos. Naquela altura muitos jogadores passavam muitas dificuldades.”
“Hoje toda uma história está para contar sobre as razões que me levaram a candidatar novamente em 2017 mas contá-lo-ei um dia, no meu próximo livro, que será o sétimo”.

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