Coimbra  21 de Março de 2019 | Director: Lino Vinhal

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Pedro Oliveira Leite dá o seu exemplo para ajudar na luta pela inclusão

6 de Fevereiro 2019

Fausto Correia, Fátima Anjos e o autor Pedro Oliveira Leite, na sessão de apresentação na Universidade Sénior do Mondego 

 

Pedro Oliveira Leite teve diversas oportunidades para desistir de tudo na vida. Mas surpreendentemente, ou não, conseguiu sempre dar a volta por cima e a sua vida resultou, literalmente, num livro, que agora apresenta em vários locais, na esperança de inspirar outros a nunca desistirem.

A mais recente sessão de apresentação da obra “Estava morto, mas não estou” decorreu, na terça-feira (05), na Universidade Sénior do Mondego – Centro Intergeracional Mondego, em São Martinho do Bispo.

Os alunos daquela Universidade assistiram a um relato difícil e cru, que mostrou bem a força de Pedro Oliveira Leite.

A história de vida do autor começa ainda criança quando, sem nunca ter conhecido o pai, é abandonado pela mãe e deixado com outros três irmãos ao cuidado da avó materna, que vivia numa zona complicada da cidade de Coimbra – na Sé Velha – onde reinava a droga e a pobreza.

A vontade de vencer levou-o a começar a trabalhar, mesmo só tendo completado o 6.º ano escolaridade, conseguiu entrar numa empresa internacional e, durante 20 anos, foi subindo a pulso dentro da estrutura empresarial, até chegar a um cargo de responsabilidade.

A vida parecia ter-se endireitado, Pedro vai à procura da certificação dos conhecimentos que adquiriu durante o seu percurso profissional e, como sempre fazia, dizia “presente” a todas as causas sociais e humanitárias. “Sentia que tinha de ajudar quem mais precisava, até pelas dificuldades que passei na infância”, revela o autor.

Foi esse altruísmo que lhe havia de mudar a vida a 180º. Durante uma acção de voluntariado nacional – “Projecto Limpar Portugal 2010” – Pedro Oliveira Leite foi brutalmente colhido por um automóvel que passou um traço contínuo, sendo projectado 15 metros.

O estado era crítico e o próprio admite: “os médicos não davam nada por mim e as previsões é de que ficaria em estado vegetativo”. Esteve em coma, sofreu três hemorragias cerebrais, uma paragem cardiorespiratória e ficou politraumatizado, além de uma fractura exposta na perna direita.

Seguiram-se “quatro anos de travessia no deserto”, mais de 600 sessões de fisioterapia, muitas consultas de psicologia e uma “grande revolta até à aceitação”.

Pelo meio houve, também, a luta difícil com a seguradora devido ao acidente, até porque a condutora nunca se deu como culpada.

Contudo, com a ajuda da família e dos (poucos) amigos que ficaram nesta fase difícil, Pedro conseguiu voltar a erguer-se e, cerca de três anos depois do acidente, decidiu que era chegada a hora de voltar a trabalhar.

Mesmo com uma incapacidade de 70 por cento, sequelas cerebrais, na locomoção, mas também num dos olhos, o autor teve vontade de agarrar a vida novamente e voltar ao emprego. Mas, nem tudo estava como havia deixado.

Durante meses, o autor foi vítima de bullying por parte da empresa, que lhe quis reduzir o ordenado e despromovê-lo. Pedro não se conformou e foi sujeito a tortura psicológica, que acabaria por levá-lo a deixar a profissão.

Hoje, quase nove anos depois, Pedro Oliveira Leite mostra que é possível “estar no fundo do poço” e ultrapassar todas as barreiras, todas as expectativas, “renascer” e reaprender a viver.

“Em casos como este, as estatísticas dizem que se salva um num milhão. Eu fui esse um e se fiquei cá é porque ainda sou preciso, ainda tenho algo para fazer”, afirma Pedro Oliveira Leite, sempre com ar positivo, em tom de brincadeira, e sorriso na cara.

A sua luta, agora, é pela inclusão de quem tem deficiências e dificuldade no acesso ao mercado de trabalho e pela própria estabilidade profissional, que tanto deseja alcançar.

“Não desisti e nunca vou desistir”, conclui.

O livro “Estava morto, mas não estou”, foi lançado em Julho de 2018, pela editora Contraponto, e conta a história de vida do autor em 150 páginas.