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Partidos estão afastados das grandes causas, diz António Campos

26 de Janeiro 2018

António Campos, co-fundador do PS, diz, em entrevista divulgada, hoje, pelo Jornal i, que “os partidos políticos estão afastados das grandes causas”.
Responsável pelo «aparelho» do Partido Socialista sob a liderança de Mário Soares (falecido), Campos foi secretário de Estado, deputado à Assembleia Constituinte e à Assembleia da República e deputado ao Parlamento Europeu.
Ao alegar que “a causa nacional número um, neste momento, é o Interior de Portugal”, o ex-governante considera tratar-se de uma “tragédia ter metade do país a desenvolver-se e a outra metade a empobrecer e a desaparecer”.
Possuidor de reconhecido instinto político, o co-fundador do PS está convicto que o PCP “não vai alinhar mais” na «geringonça».
Com elogios para António Costa e para Mário Centeno (ministro das Finanças), o entrevistado opina haver no XXI Governo “muitos tipos incapazes de aproveitar a oportunidade”.
Embora tenha sido artífice do «Bloco central» (coligação do PS e do PSD), criado para formação do IX Governo (1983 -85), António Campos é avesso à eventual reedição de tal aliança. “Só pode servir para uma emergência nacional”, acentua.
“Numa boa democracia, tem de haver, sempre, uma alternativa credível”, adverte.
Um dos elogios feitos ao PS pelo co-fundador é o de ele haver integrado no sistema democrático os demais principais partidos.
Antes da «geringonça» (entendimento de base parlamentar dos socialistas com o Bloco de Esquerda, o PCP e “Os Verdes”), o Partido Socialista aliou-se ao CDS (1978) e ao PSD (1983).
Ao assinalar que, há 40 anos, “o PS meteu a Direita no poder”, o ex-secretário de Estado acentua caber ao Governo do Partido Socialista e do CDS a criação do Serviço Nacional de Saúde (SNS), cujo «pai» foi o outrora ministro António Arnaut (Assuntos Sociais).
“A maior reforma social até foi feita com a Direita, tendo-se tratado de uma coisa habilidosa na medida em que era preciso comprometê-la com o poder”, diz o antigo responsável pelo «aparelho» do PS.
Em alusão ao «Bloco central», António Campos louva Carlos Mota Pinto (falecido), que foi líder do PSD e vice-primeiro- ministro do IX Governo.
Para o entrevistado do Jornal i, Mário Soares era avesso ao unanimismo e recorreu à oposição interna para se valorizar externamente.
“Hoje em dia, os políticos acham que a unanimidade é que os valoriza; trata-se de um erro (…) – um tipo que queira possuir carisma precisa de ter oposição”, vinca Campos.
Ao revisitar a primeira eleição de Mário Soares para a Chefia do Estado, António Campos lembra que o então candidato a Presidente da República chegou a ter, em 1985, uma estimativa de apenas oito por cento dos votos.
“Há um homem, por vezes esquecido”, António Almeida Santos (falecido), cujo papel foi decisivo para o triunfo de Soares, diz o ex-dirigente partidário.
Segundo Campos, Santos foi candidato a primeiro-ministro, em 1985, “para o eleitorado despejar o ódio” inerente à austeridade levada a cabo pelo IX Governo.
“Soares estava com oito por cento e nós dissemos a Almeida Santos [o seguinte]: candidatas-te e levas uma porrada monumental para abrir caminho” [à eleição presidencial], resume o ex-governante.