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“No fim deste mandato, quero voltar a dar aulas”

26 de Outubro 2018

Publicado a 02 de Agosto de 2018, na edição n.º937

 

Nome: JOÃO GABRIEL Monteiro de Carvalho e SILVA
Naturalidade: Pombal
Idade: 61 anos
Profissão: Reitor da Universidade de Coimbra
Passatempos: Ler
Signo: Caranguejo
Acredita que quase tudo na sua vida aconteceu de forma fortuita. Desde a escolha das disciplinas na altura em que ingressou na, denominada hoje, Escola Secundária José Falcão, ao cargo que hoje ocupa como Reitor da Universidade de Coimbra.
E, se as dificuldades (nomeadamente económicas) pautaram o início de vida escolar, todo o seu percurso, reitera, ficou marcado pelo “arregaçar de mangas e o ultrapassar de barreiras”. Relembra, entre outros momentos da sua vida, os tempos conturbados do 25 de Abril coincidentes com a altura de ingresso no ensino superior, onde “incutiam
aos jovens actividades de doutrinação política. Em 1975 fiz o serviço cívico e estive numa das casas abandonadas em São João do Campo a fazer um levantamento dos pássaros que havia na mata da Geria, porque havia a ideia de se transformar aquilo numa zona de protecção da natureza, o que nunca aconteceu. Acampei, literalmente, numa das casas abandonadas e o levantamento que fiz foi quase nenhum porque não percebia nada daquilo mas gostei da experiência. Em Agosto estive no Carregueiro, perto de Aljustrel, a abrir buracos para instalar sistema de esgotos e distribuição de água nessa aldeia. Eram actividades de doutrinação política e eu não achava muita graça a doutrinarem-nos politicamente, a porem-nos todos iguais”. Ainda assim, acrescenta, “o 25 de Abril foi como que uma libertação. Aliás, houve até um episódio que teve muito significado, na altura eu tinha 17 anos, não se podia abrir a boca, a PIDE era uma ameaça permanente e tínhamos de ter muito cuidado com o que dizíamos publicamente. Eu, na altura, era finalista e fazia parte da comissão organizadora do baile de finalistas e esse baile tinha como função angariar dinheiro para depois fazer a viagem de finalistas à Madeira. Os voos de avião eram muito caros, a receita do baile de finalistas era insuficiente. Eu e alguns colegas fomos falar com o Reitor do liceu e ele
recebeu-nos muito mal e acusou-nos de comunistas e que ainda chamava a PIDE…e nós cheios de medo porque o que lá íamos falar não tinha nada a ver com política. Isto aconteceu pouco antes do 25 de Abril, depois veio o 25 de Abril, a PIDE passou à história, eu integrei o Conselho Directivo do D. Duarte na representação dos estudantes e prontifiquei-me a tratar da viagem de finalistas. E pude levar a minha avante. Peguei no dinheiro do baile de finalistas, aluguei duas ou três camionetes, comprei frango assado e batata frita e fomos todos passar um dia à mata do Buçaco. Ninguém pagou um tostão que fosse”, conta com divertido e notório orgulho.

Na altura de ingressar no ensino superior, a escolha do curso deu-se, meramente, por exclusão de partes: “Tinha três cursos em alternativa quando entrei no ensino superior: Filosofia, Economia e Engenharia Electrotécnica. Não fui para Filosofia porque sempre me dei mal com argumentos de autoridade e aquilo que eu conhecia do ensino
universitário na altura era que basicamente os alunos tinham de repetir o que os professores dissessem e não havia margem de discussão e eu não queria ir para um curso onde tinha de pensar mas na verdade não podia pensar; Economia era um curso muito marxista e ir para lá para ser doutrinado, também não queria, era um curso
demasiado limitado; a Engenharia Electrotécnica era uma coisa pragmática e tinha uma grande componente de matemática que é fantástico porque não depende do professor, aquilo ou é ou não é”.
Em 1980, concluiu a licenciatura em Engenharia Electrotécnica, pela Faculdade de Ciências e Tecnologia de Coimbra (FCTUC), instituição da qual, em 2009, foi eleito Director (cargo que ocupou até 2011) e onde foi Professor Assistente no início de carreira. Estagiou durante três meses na Holanda na Philips e, em 1988 obteve o grau
de Doutor em Ciências de Engenharia, na especialidade de Informática, tendo sido aprovado por unanimidade, com distinção e louvor. Concomitantemente ao cargo de Professor Catedrático na UC exerceu funções de investigação, desde 1979, actividade que iniciou no âmbito de um projecto financiado pela então Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica, a entidade que antecedeu a Fundação para a Ciência e Tecnologia. Esteve envolvido em projectos de investigação até ao ano de 2008, algo que, sublinha, lhe dá especial satisfação pela sua componente probatória sobre o que em Portugal mas, concretamente em Coimbra, se consegue fazer: “há um enorme apelo de descobrir coisas novas, uma satisfação quando encontramos e descobrimos novos caminhos… eu acho que não há nada de incontornável de não podermos fazer aqui, neste cantinho de Portugal, coisas relevantes para o mundo todo. Obviamente que é mais difícil que noutros sítios, como em Stanford ou em Oxford, mas quem gosta de desafios fá-los onde também são difíceis. O meu objectivo era mostrar que aqui também era possível fazer, e consegui-o.
Orgulho-me de ter contribuído para que exista um cluster de empresas relevantes em Coimbra, a nível mundial, onde eu tive um papel muito activo. E era algo que muitos diziam ser impossível. Hoje ninguém contesta que em Coimbra há grandes empresas tecnológicas mas há vinte anos atrás riam-se na minha cara”, afirma.
João Gabriel Silva não esconde as “saudades em leccionar” e é por isso que afirma peremptório que não pretende recandidatar-se ao cargo de Reitor que hoje ocupa.
“Ainda há muito a fazer. Termino em Fevereiro do próximo ano e vou manter-me em actividade muito intensa até lá mas encaro isto como o fecho de um ciclo, quero investigar, ensinar e transmitir conhecimento para a sociedade . E é isso que eu quero fazer, ainda que o Reitor também o faça mas aqui crio condições para o fazer, não sou eu directamente… é gratificante ser Reitor desta Universidade mas eu gosto de ter as mãos na massa”.

 

E ainda….

 

“Gostei do curso que tirei, tanto que tenho saudades de voltar a ser professor e estou a antecipar aqui o fim do meu mandato. Chegando ao fim do mandato, quero voltar a dar aulas”.
“Desde muito cedo aprendi que se queremos alguma coisa temos de arregaçar as mangas e meter os pés ao caminho. As coisas não são dadas, temos de as conseguir.”
“Eu costumo dizer que o critério para saber se estou vivo é se estou a aprender. Quando eu deixar de aprender eu já não estou vivo, quero aprender até morrer. Tenho profunda consciência da tanta coisa que não sei e portanto o meu objectivo é aprender sempre.”
“A maneira como cheguei aos cargos de Direcção da FCTUC e ao cargo de Reitor seguiu a mesma lógica de 75. Eu quero que a ‘coisa’ funcione, tenho uma ideia de como deve funcionar, e não gosto que me ‘comam as papas na cabeça’, e portanto eu chego-me à frente para propor fazer as coisas como eu acho correctas. Eu cheguei à direcção da faculdade mais uma vez de forma fortuita. Quando chegou à altura das eleições para Reitor eu tinha estado a construir uma linha para que a investigação científica e o ensino de qualidade tivessem um foco muito forte e as candidaturas que me apareciam não estavam nada nessa linha e eu acabei por chegar-me à frente, ganhei e cá estou.”
“Podia dar aulas e e ser Reitor mas as aulas bem dadas exigem preparação e não conseguiria fazer tudo bem. Eu não dou aulas em que despejo matéria. Em que o estudante está quase a dormir ou a mexer no telemóvel. Gosto de dar aulas em que desafio os estudantes e também aprendo muita coisa.”
“Do meu tempo de reitorado gostaria que resultassem duas linhas principais: uma é a da UC assumir, plenamente, que está em Coimbra mas que deve ter impacto para o mundo. Estamos a liderar em termos de estudantes internacionais e o caminho está a ser feito de forma sólida e espero que se continue; o segundo, e este é sempre um desejo, é de que o mérito seja sempre o factor decisivo. Se for por proximidades, amizades, as coisas correm mal. Ainda por cima perante os desafios que a universidade tem pela frente dado que vai sofrer com a quebra demográfica do próximo decénio. Será uma quebra de 25% no número de jovens com 18 anos, é uma catástrofe absoluta, e antes de chegar a esse momento a universidade já tem sentido dificuldades. Não somos uma universidade regional, e para não o ser tem de enfrentar os critérios internacionais e eu tenho tentado que a universidade caminhe nesse sentido. Ou assim se faz ou ficamos para trás. É interessante sermos uma atracção turística, sim, mas nós somos uma universidade em primeiro lugar. No dia em que atracção turística estiver em primeiro lugar vamos ser mais um monumento que uma universidade. Estamos ao mesmo nível de universidades como Lisboa e Porto, mas temos que ser melhores…é esse o nosso desafio.”

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