Coimbra  20 de Outubro de 2017 | Director: Lino Vinhal

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Incêndio de Pedrógão teve origem a partir da rede eléctrica

12 de Outubro 2017

O catastrófico incêndio florestal de meados deste ano teve origem em descargas a partir da rede de distribuição de energia eléctrica, concluiu uma Comissão Técnica Independente presidida por João Guerreiro.

O relatório da CTI, a cuja síntese o “Campeão” teve acesso, foi entregue, hoje, à Assembleia da República.

Segundo a Comissão Técnica Independente, de um dos locais de ignição não tinha sido retirado o material combustível sob uma linha eléctrica de média tensão.

“Um relatório circunstanciado da GNR, datado de 26 de Julho, refere que [o incêndio em Pedrógão Grande] teve origem numa linha eléctrica, por contacto ou descarga, a qual observámos estar muito próxima da copa das árvores; o ponto de ignição situa-se num troço da linha de média tensão que numa extensão de 500 metros estava desprovido de faixa de protecção”, indica a CTI.

Para a Polícia Judiciária, referida no mesmo documento da Comissão, tratou-se de “um incêndio de causa acidental”, que teve como “origem primária a incidência de um raio em linha de média tensão”.

Segundo a PJ, isso é evidenciado por “danos observados em três pontos distintos nas linhas, com rotura de alguns fios do entrançado metálico (dois pontos num cabo e um ponto noutro), o que é corroborado por engenheiros” da empresa gestora da linha.

O perigo meteorológico de incêndio estava classificado como extremo e a instabilidade atmosférica era elevada, tratando-se de uma combinação que já havia gerado os maiores fogos florestais ocorridos em Portugal.

A 17 de Junho [de 2017], o vento soprou fraco a moderado, de Noroeste, e foi aumentando de velocidade até às 18h00, ocasião em que rodou para Leste, havendo evidências de tal ter sido provocado por uma frente de rajada proveniente das células convectivas (trovoada) situadas a Leste e em aproximação à região.

O sinistro, com início por ocasião de uma onda de calor prolongada, devastou perto de 29 000 hectares de floresta, sendo o segundo maior de sempre em Portugal desde que há registos.

Pouco depois das 20h00 de 17 de Junho (um sábado), houve colapso da coluna de convecção, gerando-se uma forte corrente de ar descendente (downburst) que fez avançar subitamente as frentes de chama e produziu uma «chuva» de projecções com o resultado equivalente a uma deslocação de 15 quilómetros por hora durante cerca de 10 minutos.

Tal fenómeno esteve na origem da morte da maioria das 64 pessoas falecidas.

O cumprimento anual das acções de gestão do material combustível previstas nos planos municipais de defesa da floresta contra incêndios incidiram apenas em 1,40 por cento do território fustigado em três concelhos (0,60 por cento em Pedrogão Grande), adverte o relatório.

Os postos de vigia da rede nacional de detecção de incêndios mais próximos não estavam activos. A vigilância móvel e pré-posicionamento estratégico encontravam-se limitados aos sapadores florestais.

O ataque inicial ao fogo fez-se de acordo com as regras de despacho estabelecidas, mas os meios disponíveis foram insuficientes para as condições do dia, dado o tempo decorrido desde a ignição.

Não tendo as chamas sido rapidamente extintas, após a eclosão, o controlo das mesmas tornou-se progressivamente mais difícil. Tal se deveu ao crescimento rápido, projecções abundantes e intensidade superior à capacidade de extinção, independentemente da quantidade de meios empregue.

A CTI acentua que não foram mobilizados totalmente os meios disponíveis, mas assinala que, após as 16h00 e especialmente após as 17h00, a probabilidade de contenção do incêndio seria sempre reduzida, mesmo na presença de ataque ampliado reforçado e bem organizado.

Para a Comissão Técnica Independente, as consequências catastróficas do sinistro não são alheias às opções tácticas e estratégicas que foram tomadas.

As necessárias e prioritárias medidas de protecção civil (disposições relativas à circulação na rede viária, acompanhamento da população rural, preparação de evacuações) deveriam ter sido equacionadas logo às 16 /17h00 e cumpridas a partir das 18.

Incapacidade em reconhecer e/ou responder, em tempo útil e adequadamente, ao risco existente é uma característica intrínseca do sistema nacional de combate a incêndios, devido à rígida calendarização dos recursos disponíveis e à inexistência de conhecimento especializado, opina a CTI.

Segundo o relatório, a modificação do comportamento do fogo (colapso da coluna de convecção e downburst) não poderia ser prevista por qualquer serviço de emergências em Portugal ou na Europa.

O catastrófico incêndio constitui um exemplo e um aviso de como os sistemas actuais de combate a fogos florestais não estão preparados para enfrentar um novo problema com raiz nas alterações climáticas, adverte a CTI, recomendando a adaptação das estruturas de protecção civil para adquirirem capacidade de antecipação e planeamento, substituindo a lógica de “mais meios” pela do conhecimento e da pró-actividade.