Coimbra  22 de Abril de 2019 | Director: Lino Vinhal

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Estudo do autismo com método inovador desenvolvido pela UC

4 de Abril 2019

Mohamed Edfawy e João Peça são as autores principais do estudo

 

Investigadores do Centro de Neurociências e Biologia Celular (CNC) da Universidade de Coimbra (UC) desenvolveram um modelo inovador para o estudo do autismo, que acaba de ser publicado na revista científica “Nature Communications”.

Os cientistas portugueses, liderados por João Peça, trabalharam em colaboração com colegas do Massachusetts Institute of Technology (dos EUA), com o objectivo de “ter um conhecimento mais profundo sobre determinados aspectos importantes da patologia do autismo”. “O nosso trabalho é o primeiro a olhar para o gene GPRASP2 em detalhe. Achamos que este é um alvo interessante pois poderá ser utilizado na regulação de múltiplas formas desta doença”, descreve o investigador.

O espectro do autismo é caracterizado por estereotipias (acções repetitivas), alterações na linguagem e nos comportamentos sociais, sendo um transtorno neurológico geralmente causado por mutações de diferentes genes, que resultam em formas distintas da doença.

Contudo, segundo a UC, “existem algumas alterações comuns às várias formas de autismo, como modificações ao nível dos receptores metabotrópicos de glutamato, um conjunto de receptores específico dos neurónios: é no estudo destes receptores que trabalho da equipa do CNC-UC alcançou um relevante avanço”.

O estudo “demonstrou em ratinhos que a remoção do gene GPRASP2 – que faz a reciclagem dos receptores metabotrópicos durante a comunicação neuronal – afecta o funcionamento do cérebro e os comportamentos dos animais. Através de engenharia genética, foi comprovado que esta função de reciclagem é extremamente importante, pois na sua ausência há uma menor maturação dos neurónios durante o desenvolvimento cerebral – particularmente na região do hipocampo, a zona do cérebro que possibilita a aprendizagem e a formação de novas memórias”, adianta o investigador.

Esta investigação pretende, por isso, “compreender um pouco melhor que outras zonas do cérebro e que tipos celulares é que realmente são responsáveis pelas diversas disfunções que se observam nos animais com mutação no gene GPRASP2”, assim, será possível também “perceber que circuitos se consegue modular com alterações neste gene”, nota.

João Peça dá como exemplo se “as alterações nos comportamentos sociais dos animais não serão devido a alterações no hipotálamo, uma outra região onde há grande expressão deste gene?”. Esta questão leva à intenção de “compreender se uma futura terapia que regule os níveis de GPRASP2 poderá ser utilizada em formas de autismo onde há perturbação dos receptores metabotrópicos. Por isso, estudo é uma semente para projectos futuros”, conclui o investigador do CNC.

Para além de João Peça, o estudo conta com a colaboração de Mohamed Edfawy como autor principal e com Joana Guedes, Marta Pereira, Mariana Laranjo, Mário Carvalho, Pedro Ferreira, Gladys Caldeira, Lara Franco, Ana Luísa Cardoso e Ana Luísa Carvalho como co-autores.

Intitulado “Abnormal mGluR-mediated synaptic plasticity and autism-like behaviours in Gprasp2 mutant mice”, a investigação foi financiada pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, pela Fundação Bial, pela Brain & Behavior Research Foundation (dos EUA), contando ainda com o apoio do projecto europeu “Marie Curie”.