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“Coimbra precisa de Unidade de Saúde da Mulher e da Criança”

27 de Maio 2018

Perfil publicado a 05 de Abril de 2018, na edição n.º 920

 

Nome: Agostinho Almeida Santos
Naturalidade: Coimbra
Idade: 77 anos
Profissão: Ginecologista, Cônsul de Cabo Verde para a região Centro e professor aposentado
Passatempos: Pesca
Signo: Virgem

 

Nasceu em casa da avó em Coimbra mas fez a escola primária numa aldeia do distrito de Leiria, Colmeias. Quando terminou o ensino básico, face aos horários que teria de enfrentar para ir à escola, os pais optaram por trazê-lo de volta à cidade natal onde ficou a estudar no liceu D. João III concluindo o secundário em 1957. Conta, divertido, que em pequeno queria ser oficial de marinha mas nem sequer sabia nadar. À margem dos sonhos de criança, o curso superior a seguir não podia ser outro: “não podia deixar de ser médico, porque o meu pai era e a mãe também portanto não valia a pena estar com discussões. Foi uma questão genética a determinar a minha escolha porque eles nunca me disseram para eu seguir isto ou aquilo. Como nós dizemos, é um gene autossómico, vinha do pai e vinha da mãe, juntaram-se os dois e deu isto”, esclarece Agostinho Almeida Santos.
Licenciou-se em Medicina pela Universidade de Coimbra, doutorando-se mais tarde na mesma instituição e os bons resultados académicos permitiram que se dedicasse ao ramo da investigação.
As circunstâncias levaram-no a atrasar a incorporação nas fileiras militares tendo sido chamado de emergência à marinha que estava com falta de médicos onde, ironicamente, acabou por ser ginecologista dos fuzileiros navais no norte de Moçambique: “O que o destino nos traz. Eu bem dizia que queria ser oficial de marinha”.
Na altura de escolher a especialidade, diz tê-lo feito por “razões sentimentais: quando terminei o curso de Medicina tive vários convites para ser assistente na Faculdade. Convidaram-me três médicos, entre eles o professor Ibérico Nogueira que tinha sido colega dos meus pais. E como é que opto entre três convites? Escolho o colega dos meus pais”, conclui o ginecologista.
Em 1987 o destino levou-o a França onde surgiu a ideia de importar para Portugal o método GIFT – Transferência de Gâmetas para a Trompa – técnica alternativa à tradicional fertilização ‘in vitro’, cujo primeiro bebé nasceu em Junho de 1988.
Esteve em Paris três anos com o “mestre francês Abert Netter, o expoente máximo da especialidade no mundo”, sublinha. Vivia-se uma época onde, conta, os casais ainda não cultivavam a ideia de que, se não têm filhos e querem tê-los, há que fazer algo mais por isso.
Regressou depois a Coimbra onde instalou a consulta de esterilidade nos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC). “Hoje já ninguém fala nessa palavra mas ela existe.
Esterilidade é a situação do casal que não consegue ter filhos. Infértil é o casal que consegue engravidar mas a mulher perde sistematicamente as gravidezes. São coisas diferentes”, esclarece.
O nome de Agostinho Almeida Santos foi passando de boca em boca fruto do sucesso nos tratamentos e investigações que levou a cabo. Em 2008, contabilizadas as crianças que ajudou a vir ao mundo, o número ascendia aos 17 mil. “Um número simpático” que, modestamente, atribui também “à sorte dado tratar-se de uma área pouco explorada”. Além disso, há mais um factor importante para os bons resultados nesta área: “Muitas vezes basta tranquilizar o casal e isso é muito importante.”
Hoje, curiosamente, a vida reservou-lhe uma família de mulheres. E são as iniciais dos nomes das filhas, da esposa e do seu próprio nome que baptizam o barco que comprou para navegar nas manhãs dedicadas ao seu principal passatempo, a pesca: Mascote (Margarida, Agostinho, Susana, Clara, Olga, Teresa). Decisão que, sublinha, espelha a importância da família para si.
Publicou diversos artigos, foi Presidente do Conselho de Administração dos HUC durante dois anos e, em 2010, foi condecorado com a “1a Classe de Medalha de Mérito” pelo Presidente da República de Cabo Verde. É autor do livro ‘Razões de Ser’ e chegou a ser agraciado com a comenda de “Chevalier de L’Ordre National du Mérit” pelo Presidente da República de França.
Hoje mantém o cargo de cônsul de Cabo Verde para a Região Centro e ainda dá algumas consultas de Ginecologia. Aparte a notabilidade da carreira, diz não se sentir totalmente realizado a nível familiar: “ainda quero assistir ao crescimento profissional das minhas netas. Duas estão a terminar o curso de Medicina e queria que fossem excelentes profissionais. Uma delas acaba de fazer uma tese de mestrado com um tema de grande actualidade. Foi preocupar-se em saber, através de um inquérito, quantas horas passam os estudantes em videojogos e a sua influência no comportamento das pessoas.”
Agostinho Almeida Santos lança ainda repto à cidade: “Coimbra precisa de criar uma Unidade de Saúde da Mulher e da Criança para que todas estas valências conglutinadas permitam ao ser humano do sexo feminino ser acompanhado desde o início ao fim mais ou menos pelas mesmas pessoas e no mesmo ambiente. Isto, sim, poderá tornar Coimbra diferente”.

 

E ainda…

“Gosto muito de estar com a família e estou com eles sempre que posso. E vamos os dezanove, todos os anos, passar uma semana (ou mais) a Cabo Verde. Pelo menos uma semana é sagrada enquanto eu puder.”
“Fui mensageiro da medicina da reprodução, na área de Obstetrícia e Ginecologia, em Cabo Verde. O objectivo era diminuir a mortalidade infantil. Caminhei durante seis anos para lá e formei cinco especialistas nesta área, no terreno com as condições locais. Hoje a mortalidade infantil em Cabo Verde é das menores de África e pode dizer-se que não há um parto em Cabo Verde que não seja assistido num centro médico.”
“Fiz uma avaliação na ilha da Boavista que tinha níveis de salinidade muito altos na água o que devia fazer com que as pessoas tivessem níveis de tensão arterial muito altos, e assim era de facto.
Eu tentei reduzir a tensão arterial daquelas pessoas porque previa mortes devido à hipertensão grave e, durante algum tempo, com a ajuda de um administrador hospitalar muito competente, fizemos uma tentativa de a baixar com alguma medicação. Sabe o que aconteceu? Os cidadãos apareceram no primeiro mês após este tratamento queixando-se que não o aguentavam porque tinham tonturas. A tensão tinha baixado efectivamente mas eles sentiam-se mal. A verdade é que eles têm no ADN a preparação para ter um teor de sal elevado.”
“Um dia soube que em Oliveira do Hospital o Politécnico tinha muitos alunos cabo verdianos. Então resolvi visitá-los para saber como estavam a sentir-se por cá. Fizemos uma reunião e almoçámos todos juntos. Estavam felizes e diziam ‘a escola acolhe-nos bem, vivemos em comunidade, divertimo-nos e quando nos falta uma comunidade maior vamos a Coimbra.’ E isso deu-me tranquilidade.”
“Tem de se criar uma especialidade que conglutine a mulher no seu todo, desde que nasce, quando é adolescente, quando está grávida e depois quando atinge a menopausa. Não é uma Maternidade aqui, outra daqui a dois km’s e depois dois Pediátricos a 500 metros de distância um do outro…isto não serve!”
“Quando um casal não tem filhos já passado dois ou três anos diz-se logo ‘é fazer um bebé proveta’. Mas desvirtuou-se um pouco este tema. O problema da esterilidade e da infertilidade obriga, como em qualquer doença, a saber o porquê primeiro, depois tratar essa doença e só então tomar decisões já mais fundamentadas.”
“A Ginecologia tem uma importância muito grande. Nós temos uma taxa de mortalidade infantil das mais baixas do mundo e isso significativa que em Portugal se tratam bem as grávidas e as crianças.”
“Vivi o espírito académico de Coimbra na ‘Real Republica Boa-Bay-Ela’. Mas eu precisava de estudar. E assim que terminava a queima das fitas ia para Mira, alugava um quarto e ficava a estudar 17 horas por dia até aos exames.”