Coimbra  21 de Março de 2019 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Cientistas da UC desenvolvem método para combater estigma na obesidade

29 de Janeiro 2018

“Kg-Free” é o nome do método desenvolvido por investigadores do Centro de Investigação do Núcleo de Estudos e Intervenção Cognitivo-Comportamental (CINEICC) da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra (FPCE-UC) para combater o estigma na obesidade e no excesso de peso.

Os cientistas desenvolveram e testaram a eficácia de uma intervenção psicológica inovadora, baseada em três componentes essenciais: “mindfulness”, aceitação e autocompaixão, para diminuir o impacto do estigma internalizado na obesidade.

Este programa resulta de uma investigação de quatro ano, desenvolvida no âmbito do doutoramento de Lara Palmeira e orientada pelo docente e coordenador do CINEICC José Pinto Gouveia (FPCE), e por Marina Cunha, do Instituto Superior Miguel Torga.

O programa é constituído por 10 sessões semanais e duas quinzenais em grupo, focando-se em “promover comportamentos saudáveis e qualidade de vida e diminuir o impacto do estigma em relação ao peso e mulheres com excesso de peso e obesidade”, revela, hoje, a UC.

“A intervenção aposta, assim, no ‘mindfulness’ (um treino mental que ensina as pessoas a lidarem com os seus pensamentos e emoções), promovendo uma relação mais consciente com a alimentação, como, por exemplo, dando atenção aos sabores e textura dos alimentos. É, também, promovida uma relação positiva e flexível com a imagem corporal, peso e alimentação. A terceira componente trabalha a relação do ‘eu’ e da autocompaixão, isto é, diligencia uma relação interna baseada numa atitude de compreensão, cuidado e suporte a nós mesmos quando falhamos ou quando as coisas correm mal”, adianta a Universidade.

Segundo a investigadora Lara Palmeira, os resultados “evidenciam que a intervenção foi eficaz na promoção do bem-estar e da qualidade de vida e na diminuição de comportamentos alimentares perturbados, do estigma internalizado e do autocriticismo”.

O programa Kg-Free “permitiu que as participantes desenvolvessem uma atitude mais saudável, flexível e positiva em relação ao seu peso e alimentação, promovendo uma alimentação mais consciente e saudável, bem como o desenvolvimento de uma visão do ‘Eu’ mais positiva e menos crítica/hostil, focada no bem-estar e na persecução de uma vida com significado que vá para além do peso”, explicita a investigadora do CINEICC.

Esta investigação põe em foco a importância de complementar as tradicionais abordagens de combate à obesidade com uma intervenção psicológica, sendo necessária uma “outra forma multidisciplinar que se foque não só na perda de peso, mas que promova directamente o bem-estar e qualidade de vida, intervindo na diminuição do estigma e nas estratégias de regulação emocional desadaptativas”, observa Lara Palmeira.

“Apesar do seu profundo impacto negativo, o estigma em relação ao peso permanece atualmente como uma das formas de estigma mais socialmente aceite, sendo muitas vezes promovido como forma de combate contra a obesidade e que tende a ser internalizado pelas pessoas com excesso de peso e obesidade”, refere a investigadora, adiantando que “é urgente integrar a abordagem psicológica nos tratamentos porque a obesidade é uma doença muito heterogénea”.

No seu conjunto, os resultados “apresentam importantes implicações para a intervenção psicológica na obesidade, salientando a importância de adequar as intervenções às pessoas com excesso de peso e obesidade e consciencializar os profissionais de saúde para a importância de adoptar uma atitude de tolerância, aceitação e não julgamento para promover a adesão ao tratamento e melhores resultados”, conclui a investigadora.

O projecto, que foi financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologi (FCT), envolveu a participação de centenas de adultos com excesso de peso e obesidade, na sua maioria mulheres, em tratamento para perda de peso no distrito de Coimbra, destacando-se o estudo da intervenção “Kg-Free” em que participaram 60 mulheres adultas com excesso de peso ou obesidade.