Coimbra  19 de Novembro de 2017 | Director: Lino Vinhal

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“Aldeia do Médico” só no papel, ex-bastonário relativiza fracasso

17 de Julho 2017

O projecto da “Aldeia do Médico”, com que José Manuel Silva acenou, há 10 anos, em primeiro mandato na Ordem, nunca saiu do papel, mas o ex-bastonário augura-lhe futuro.

Em 2007, com José Manuel Silva a completar o primeiro mandato como dirigente da Ordem dos Médicos (OM), a Secção Regional do Centro acenou com um projecto “inovador, ambicioso e virado para o futuro”, mas, até hoje, ele nunca saiu do papel.

Num “boletim informativo”, datado de Setembro e Outubro de 2007, José Mário Martins, que coadjuvava o presidente da Secção Regional do Centro (SRCOM), aludiu a um empreendimento possuidor de “impacto relevante na região Centro, com pernas para andar” e desfrutando de vários investidores interessados em estabelecer parcerias.

Há uma década, tratava-se de avançar com “um concurso nacional para a globalidade do projecto, de modo a ficar arquitectonicamente arrojado, integrado e coerente”.

A 06 de Junho de 2013, o diário As Beiras indicou que o projecto ia estar concluído até ao final daquele mês. Em Outubro do mesmo ano, Fernando Gomes, timoneiro da SRCOM entre os mandatos de José Manuel Silva e os de Carlos Cortes, disse que a “Aldeia do Médico” ia ser inaugurada em 2015.

De volta a 2007, soube-se, pela pena de José Mário, ter sido comprado um terreno, a Poente da Adémia, com uma superfície aproximada a 110 000 metros quadrados (11 hectares), pelo qual a SRCOM desembolsou mais de 1,50 milhões de euros.

O médico referiu-se à construção de um auditório multiusos / centro de congressos e a indispensáveis zonas de apoio, cuja área foi estimada em 4 500 metros quadrados. Teriam, disse ele, “todas as condições para receber eventos” capazes de mobilizar até 1 500 pessoas.

“Museu do Médico”, restaurante panorâmico e um “espaço infantil, ligado à temática da Medicina, da doença e da promoçao de estilos de vida saudáveis”, eram alguns dos aspectos com que Martins acenou. Mas havia mais promessas: execução de um anfiteatro (do tipo dos do tempo do Império Romano), piscina ao ar livre (com possibilidade de cobertura amovível), zona mista de jogos e preservação de uma zona de mata mediterrânica, em cuja orla seriam implantados passeios pedonais e uma ciclovia.

Interpelado pelo “Campeão”, aquele que é, hoje em dia, o candidato do movimento “Somos Coimbra” à liderança do Município, José Manuel Silva, imputa à deflagração “da crise financeira mundial”, em 2008, a origem do fracasso do projecto.

“Como se perceberá, mandava a prudência e o bom senso que se reavaliasse o ritmo de evolução”, opina o anterior bastonário da Ordem dos Médicos (2011-16), cargo em que foi investido depois de ter exercido dois mandatos como presidente da SRCOM.

Foi dirigido à Câmara conimbricense um pedido de informação prévia sobre o que era exequível no terreno, na sequência do qual houve a apresentação de uma proposta formal de alteração do Plano Director Municipal. “Ficámos a aguardar a decisão final [acerca] do PDM, o que demorou muito tempo, pois só a partir daí poderíamos saber com exactidão quais as regras e área de construção”, acentua o médico.

“Projectos desta ambição e complexidade têm de caminhar com bases muito sólidas, como certamente todos concordarão, assim como todos conhecerão que estes procedimentos camarários não são muito céleres em Coimbra…”, vinca o ex-bastonário.

Quanto ao desembolso de mais de 1,50 milhões de euros, Silva opina que a compra do terreno representa uma “imensa mais-valia, que enriqueceu o património da Ordem”.

José Manuel afirma “continuar a acreditar na mais-valia do projecto” e na respectiva exequibilidade e sustentabilidade, “agora que a economia está novamente em crescimento e a situação financeira do país se encontra em recuperação”.

Tratando-se de um emprendimento para a região Centro, prossegue ele, o seu impacto positivo far-se-á sentir essencialmente no concelho de Coimbra, que “necessita de projectos inovadores, arrojados e dinamizadores, face à situação dramática que os seus indicadores demográficos evidenciam”.

Segundo o ex-bastonário da OM, “o envelhecimento de Coimbra é dramático e, em breve, Leiria será a cidade mais populosa do Centro de Portugal”.

Ao reiterar que se trata de um “projecto complexo e ambicioso, sob a responsabilidade de uma instituição com mudança regular nos seus corpos sociais e sujeita a regras públicas”, José Manuel Silva conclui que, “certamente, ninguém esperaria que ele fosse concretizável rapidamente”.

Talvez não, mas talvez também ninguém esperasse que, volvida uma década, o projecto nunca saísse do papel.