Coimbra  20 de Novembro de 2018 | Director: Lino Vinhal

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AAC: Direcção da Secção de Andebol disposta a demitir-se

12 de Setembro 2018

A Direcção da Secção de Andebol da Associação Académica de Coimbra decide, amanhã (quinta-feira), se vai demitir-se, em face da falta de viabilidade financeira por ter de assumir os custos de utilização dos espaços desportivos da Universidade.

A reunião da Secção de Andebol da Associação Académica de Coimbra (SA-AAC) está marcada para as 21h30 e se for aprovado o documento que fundamenta a demissão os dirigentes vão entregar as “chaves” à Direcção-Geral da AAC.

“Perante um crescente constrangimento financeiro, os actuais dirigentes assumem a difícil decisão de terminar com a Secção de Andebol exactamente no ano em que celebra os 80 anos”, lê-se no documento, justificando que “é dever assumir o ónus da decisão, perante uma situação em que, inevitavelmente, terminariam a época desportiva com um défice estimado superior a 5 000 euros”.

A situação descrita no documento é a seguinte:

«Até anos recentes, a Secção de Andebol recebia anualmente, através dos mecanismos de redistribuição de apoios da AAC para as secções desportivas (apoio da Câmara Municipal de Coimbra, receitas da Queima das Fitas, apoio do banco que patrocina a AAC, entre outras receitas – refira-se que actualmente apenas a Câmara Municipal de Coimbra (CMC) financia anualmente o desporto da AAC com cerca de 90 000 euros), cerca de sete a 10 000 euros anuais, a que acrescem as quotas dos atletas de formação e outros patrocínios/apoios de empresas e afins (estes últimos essencialmente canalizados para a equipa sénior, maioritariamente formada por estudantes da UC);

Nas últimas décadas, a situação alterou-se drasticamente, fundamentalmente devido aos seguintes factos:

a) A DG, presidida então por Bruno Matias, assinou, no último mês do seu mandato, um acordo com o “dito” academista Campos Coroa, de mais de 200 000 euros (a pagar a 25 anos), assumindo, sem contestar, uma suposta dívida ainda dos tempos em que este dirigiu a SA-AAC (uma dívida que se encontrava prescrita, no momento da assinatura do acordo, sem comprovativos contabilísticos e sustentado numa declaração assinada pelos dirigentes da Secção de então, que não tinham competências para tal), no início dos anos 90, levando a DG, já presidida por José Dias, a comprometer a DG a assumir o pagamento de metade da mensalidade (400 euros) cabendo à SA-AAC, por retenção de verbas, o pagamento dos outros 400 euros mensais (total de 800 euros mensais durante 25 anos) – ou seja, 4 800 euros anuais que a SA-AAC deixa de receber.

b) A UC, desde o início do primeiro mandato do reitor João Gabriel Silva, considera que as secções desportivas, que praticam desporto federado e com escalões de formação, são um “custo” para a UC e que não se integra na missão de uma universidade pública, numa universidade que se quer global. Deste modo, encetou uma negociação e pressão sobre a DG, dado ser uma entidade financiadora do funcionamento regular da DG (atribui cerca de 223 000 euros anuais), a posição de força que detém não pode levar a considerar-se que houve uma “negociação”, mas sim uma imposição gradual, que levou à implementação das seguintes políticas:

– cálculo de um valor de utilização dos espaços desportivos por parte das secções, levando à definição de um valor para a SA-AAC de cerca de 7 800 euros anuais – contudo, numa acção de boa vontade, a UC baixou para metade o custo, levando a um valor final de 3 900 euros (que serão igualmente retidos nas hipotéticas transferências a efectuar);

– cálculo de um valor a pagar por utilização dos espaços desportivos durante o fim-de-semana, para competições, a pagar na “hora”, que no caso da SA-AAC corresponde a perto de 3 000 euros anuais (informação recebida na semana em que se iniciou a época, impossibilitando a procura rápida de soluções).

c) A DG, actualmente presidida por Alexandre Amado, considera natural e inevitável que as secções paguem para usar os espaços universitários, na aplicação de um princípio do utilizador-pagador numa actividade de missão pública, formação de jovens, integração de atletas universitários no escalão sénior e participação em competições federadas, ignorando por completo a História, os valores inerentes à AAC e UC, bem como na missão que as secções desportivas desenvolvem, formando jovens no espírito da Académica, os quais virão, muitos deles, a querer frequentar a UC e na atractividade que as modalidades desportivas federadas da AAC exercem na opção dos estudantes no momento de escolher a universidade.

d) A SA-AAC passa, em poucos anos, de uma situação de recepção de um apoio anual de sete a 10 000 euros para uma situação em que, para além de nada receber, ainda terá de pagar perto de 3 000 euros anuais à UC, para exercer o direito de treinar, jogar e defender o símbolo da AAC e da UC, que levávamos, até agora, sobre o coração com grande orgulho.

e) A SA-AAC considera ser vergonhoso a aplicação destas medidas, por parte da UC, no momento em que foram mobilizados muitos milhares de euros dos programas comunitários de coesão para a requalificação dos espaços desportivos da UC (acrescida a verbas próprias, resultantes igualmente de fundos públicos), a tempo de realizar os Jogos Universitários Europeus, onde vimos os seus responsáveis a vangloriar-se com as medalhas de atletas que treinam e competem pelas secções desportivas.

f) A SA-AAC considera vergonhoso que, actualmente, perante a inexistência de outras fontes de financiamento, seja, na prática, o apoio da Câmara Municipal de Coimbra a pagar o aluguer dos espaços à UC, deturpando os objectivos do Regulamento Municipal de Apoio ao Desporto.

Perante a realidade acima descrita, e após anos de recuperação da situação financeira e desportiva da SA-AAC, pagando todas as dívidas existentes, crescendo em número de atletas de formação e seniores, integração de novos dirigentes, captação de um conjunto alargado de técnicos, envolvimento de pais/mães de atletas em funções de apoio à modalidade, a Direcção da SA-AAC considera que não se pode exigir mais financeiramente aos atletas, nem podem ser os seus dirigentes a assumir os compromissos financeiros decorrentes da actividade regular.

Deste modo, para não repetir irresponsabilidades passadas, somos obrigados a demitir-nos assumindo a incapacidade em reunir as condições necessárias para manter a actividade regular do andebol, perante uma realidade que veio alterar o compromisso histórico da UC para com as secções desportivas da AAC. Recorde-se que é a primeira vez que tais pagamentos são exigidos pela UC, ficando como “medalha de fim de mandato” do actual reitor João Gabriel Silva.

A Direcção está disponível para passar o testemunho a quem desejar assumir a missão de liderar a SA-AAC e encontrar soluções para os problemas enumerados. Certamente, outros dirigentes poderão encontrar os financiamentos necessários e salvar a SA-AAC. Assim o desejamos.

A Direcção apresenta, em primeiro lugar, as maiores desculpas aos cerca de 100 atletas (bambis, minis, infantis, iniciados, juvenis e seniores – acrescido dos cerca de 40 veteranos que nos têm acompanhado) e pais/mães que depositaram, até agora, a confiança nos actuais dirigentes para praticar o andebol. É por eles, e com eles, que sempre estivemos presentes, lutando com as nossas forças, o melhor que sabemos. É, sem dúvida, o que mais lamentamos neste processo, dado que na cidade e no distrito não existe qualquer outro clube de andebol, significando o término desta modalidade olímpica em Coimbra e em todo o distrito.

Em segundo lugar, apresentamos as nossas desculpas às entidades e empresas que nos apoiaram nos últimos anos. Sendo insuficiente para manter a SA-AAC, foram generosas procurando dar o que podem, num contexto difícil. Terminamos a época de 2017-2018 superando todos os objectivos previstos, apesar das dificuldades financeiras (mas sem saldo financeiro).

Em terceiro e último lugar, apresentamos as nossas desculpas à cidade de Coimbra, e seus adeptos e simpatizantes, espalhados por todo o país e o resto do mundo. Sabemos que temos um crescente número de seguidos, que nos segue com regularidade, vê os jogos transmitidos no Facebook, vai aos pavilhões apoiar a SA-AAC e ajudam a promover o nome da AAC e da UC.

No ano em que celebramos os 80 Anos da SA-AAC, jamais no passaria pela cabeça tomar uma decisão como esta. É por considerarmos que não conseguimos reunir as condições necessárias, que apresentamos a demissão imediata, colocando nas mãos da DG-AAC a expectativa de conseguir captar novos dirigentes para prosseguir esta missão.

Desejamos, por fim, que o andebol não termine na AAC-UC! Esperamos que a cidade possa saber defender esta modalidade».

 

 

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